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Seg, Mai

Os caminhos para o jornal impresso

Brasil e o mundo

elson faxina01Publicado em fevereiro deste ano, a pesquisa da Secretaria de Comunicação da Presidência da República, "Hábitos de consumo de mídia pela população brasileira", realizada em 848 municípios, com 18.312 brasileiros, revela que 75% dos entrevistados afirmaram que não leem jornal diariamente.

A pesquisa, não fala de jornais segmentados. Porém, de qualquer maneira, representa um desafio para todas as redações de jornal impresso. Além disso, lança questionamentos sobre o futuro do jornalismo e a manutenção de publicações diárias, semanais, mensais ou bimestrais.

Irá o impresso acabar? O jornalismo consegue se reinventar? Essas e outras perguntas são respondidas pelo professor Elson Faxina, Doutor em Ciências da Comunicação pela Unisinos e Mestre em Ciências da Comunicação, na área de Cinema, Rádio e Televisão, pela ECA/USP.

O SÃO PAULO - Como o senhor define o atual momento do jornalismo impresso no Brasil?

Professor Elson Faxina - É um momento bastante singular, desafiador. O jornalismo impresso levou um pequeno golpe com o surgimento do rádio, começou a cambalear com a invenção e popularização da televisão e está aturdido com a pujança da internet. Na realidade, essas tecnologias da comunicação não são um problema tão sério para o jornalismo impresso. O problema é que ele até hoje não soube buscar o seu novo lugar no atual sistema informativo corporativo e social.

Muito tem se comentado que o jornal impresso está em crise. O senhor compartilha dessa ideia? Se sim, atribui essa crise a quais fatores?

Sim, vivemos uma crise nessa área. Há uma espécie de encolhimento dos meios impressos, com uma diminuição sensível de leitores. Trata-se de uma crise com duas raízes. A primeira é de ordem sociocultural. Isto é, estamos atravessando um novo momento social e cultural que nos impõe desafios enormes a todas as instituições tradicionais. Uma delas é o jornalismo impresso que, tal como o conhecemos hoje, é oriundo de uma sociedade dominada pela racionalidade. Ele surgiu no período em que McLuhan classifica como o da destribalização do conhecimento, dominado pela razão. No entanto, estamos vivendo hoje o que o mesmo autor canadense classifica como o período da retribalização do conhecimento, que é um período dominado pela emoção e pela empatia, nas relações de troca de informações. E não raro o jornalismo impresso hoje continua sisudo, distante das pessoas, feito por gente que quer explicar a sociedade trancado em redações; quer entender a periferia sem andar pelas suas vielas; quer ser lido pelas pessoas sem olhá-las no olho, sem tocá-las, ouvi-las, sentir o seu cheiro, o seu sabor, sem conhecer os seus pesares e seus sonhos.

A segunda raiz é da ordem do reordenamento informativo que contemple a convivência entre os diferentes veículos de comunicação. O jornalismo impresso feito ainda hoje é um modelo exaurido, que insiste em permanecer vivo, mas de forma anacrônica, sem criatividade, com uma narrativa engessada nos ditames da racionalidade. Estamos perdendo tempo e muito papel para imprimir e ser lido amanhã o que todos já sabem hoje pela internet, TV, rádio. Na realidade, o jornalismo de um modo geral empobreceu. Hoje, se faz muito pouco jornalismo investigativo de verdade, e quando se faz é por iniciativa de corajosos jornalistas, pouquíssimas vezes bancados pelos veículos. Na maioria das vezes o que há é um jornalismo de repercussão de denúncias feitas por políticos e pelos órgãos policiais, e querem fazer a sociedade engolir isso como se fosse investigação jornalística.

As novas tecnologias representam, de fato, um risco para o jornal impresso, assim como disseram que a invenção da tevê representava para o rádio?

Do seu jeito, o rádio soube reencontrar o seu lugar no reordenamento informativo, deixando lugar para a tevê e ocupando um espaço que é só dele. Mas o jornalismo impresso é o mesmo de antes.

Para impulsionar a quantidade de leitores e atrair novos parceiros comerciais, que posturas diferentes a direção e os jornalistas de veículos impressos devem assumir?

A saída dessa crise vai depender do modo como diretores e jornalistas encararem este momento. Se a decisão for insistir no tipo de jornalismo impresso que vem sendo feito, fazendo firulas gráficas e até pirotecnia informativa e chamando isso de mudança, essa crise vai se prolongar e ampliar as feridas já visíveis. Se aproveitarem essa crise para repensar o jornalismo que vem sendo feito, podemos ter ótimos resultados futuros. No entanto, as únicas novidades que o jornalismo impresso inventou são péssimas. Aponto três desses novos modos de fazer jornalismo hoje:

1) O jornalismo "declaratório": alguém diz algo e o jornalista toma como verdade e o veicula, sem a preocupação de apurar, checar... Aí, quando o outro lado contradiz, ele repercute e acha que está fazendo jornalismo, quando, na realidade, entrou na mesma dinâmica da fofoca, com a diferença de ouvir a fofoca dos dois lados.

2) O jornalismo "panfletário": produzem-se verdadeiros editoriais disfarçados de jornalismo. Na realidade, é um jornalismo preguiçoso, porque substitui a busca da informação pelo atalho da opinião; é rancoroso, tendencioso do pior naipe e fica o tempo todo reivindicando para si o direito à "liberdade de imprensa", que é o que menos faz.

3) O jornalismo "Mãe Diná": fica o tempo todo tentando adivinhar o futuro, baseando-se em falsas informações. Só para ficar em fatos bem recentes, a imprensa "previu" que o Brasil não conseguiria fazer a Copa do Mundo e que, caso houvesse, o time de Felipão seria campeão. Quase convenceu a sociedade, mas errou nas duas "previsões". Hoje, a imprensa vem apostando o tempo todo que a economia brasileira está combalida, mas a cada pouco tem que divulgar índices reais e se justificar dizendo que "as previsões falharam". Claro, é um jornalismo que fica o tempo todo ouvindo apenas a oposição e os analistas de mercado. Ora, que seriedade esperar de quem visa só o poder e de quem vive da especulação?

Muito se fala que o jornalismo, no geral, tem que se reinventar. Como isso pode acontecer na prática?

Essa reinvenção deve ser um trabalho árduo, lento e de muitas frentes e faces. O mais importante, no entanto, é que o jornalismo se vincule mais à própria sociedade e menos às corporações de poder e de mercado. Os jornalistas devem abandonar, e muito, os palácios e os carpetes dos detentores do mercado e passar a pisar no barro da periferia, a conhecer e conviver com novas lideranças sociais, culturais, aventurando-se pelas amplas avenidas da sociedade civil. Nosso jornalismo, especialmente o impresso, tenta interpretar a sociedade com um olho no poder e outro no mercado. A sociedade só aparece ali como número, estatística. Seu olhar não está nos jornais. No entanto, cada bairro, cada vila, cada comunidade é uma verdadeira cidade, com acontecimentos fantásticos diários de vida, de labuta, de tristezas e alegrias, de solidariedade... Mas sempre ausentes dos jornais. Ora, por que então a sociedade vai se motivar e ler o que não é seu espelho? Mas para fazer esse novo jornalismo é preciso, insisto, pisar no barro, para a partir dali olhar a sociedade.

Nosso olhar sobre as coisas, o mundo, as pessoas, a sociedade está "contaminado" pelo lugar em que pisamos. E esse é um momento importante, porque podemos usar as novas tecnologias não para ampliar a quantidade da mesma informação, e sim para melhorar sua qualidade. Deveríamos usar as novas tecnologias para libertar os jornalistas do cárcere das redações e empurrá-los a andar pelos bolsões onde vive a população, e ir lá de ônibus, e não de carro com motorista particular.

Para os veículos segmentados, como os jornais confessionais, que fatores seriam mais desafiadores para essa reinvenção?

De um modo geral, nossos jornais confessionais estão muito presos à hierarquia eclesial. São verdadeiros porta-vozes oficiais, cumprindo uma função de falar "para" as pessoas e não "das" pessoas, "com" as pessoas e muito menos de serem falados "pelas" pessoas. Ora, se o jornal não espelhar a vida comunitária, não contar as histórias de vida dos fiéis, não mostrar as obras oriundas da fé, não mostrar a Igreja de fato, permanecendo numa visão de que a Igreja é a hierarquia, só será lido pela hierarquia e seus achegados.

Um jornalismo mais humano, atento aos fatos locais e que dê voz àqueles que não têm voz, pode ser uma saída para o jornal impresso, sob a ótica da informação e da sustentabilidade financeira?

Para mim é a única saída. Deus, na sua infinita sabedoria, transformou o Verbo em carne e o enviou para habitar entre nós. E ao estar entre nós, o Seu Filho, o Verbo feito carne, dedicou-se a traduzir os ensinamentos divinos em vida, em exemplos, em parábolas. Quando era interrogado para explicar algo muito sério, Jesus criava uma boa história e contava. Ele não fazia teoria; divulgava a prática. Nós fazemos o contrário, estamos o tempo todo teorizando, falando para poucos, para os entendidos, deixando de lado tantas histórias de vida que acontecem nas nossas comunidades, por obra de nossas pastorais, movimentos, serviços e demais instituições de Igreja, ou mesmo pela obra dos milhões de fiéis. Preferimos escrever verdadeiros discursos, teorizar, em vez de contar essas belas parábolas vivenciadas. Ficamos o tempo todo invertendo a sabedoria Divina: tentando transformar o que é carne em verbo.

Créditos: Jornal O SÃO PAULO - Edição 3015 - 20 a 26 de agosto de 2014

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